O portal (Parte VI) – Polymel

Para sua grande desilusão, de madrugada encontrou, embora na posição em que tinham adormecido, a fera de pelo negro. Não queria mexer-se para não a acordar sem antes decidir como lidar com ela, mas a dormência nas pernas e as pontadas nas costas impeliram-no a afagar-lhe o dorso, numa tentativa de estabelecer algum contacto agradável entre os dois.

Em vão. O animal abriu os dois enormes olhos negros, com o familiar brilho faminto, e lançou-lhe um rosnar revoltado.

– Está bem, está bem! Come isto. – Atirou-lhe com uma mão de frutos secos para longe de si, de forma a poder levantar-se e esticar o corpo.

Queria Németh de volta. Não a besta mas a mulher encantadora.

Desceu até junto da água à procura dos cogumelos que a tinham transformado na véspera e aguardou que ela se lhe juntasse.

A água começou a movimentar-se à força dos pingos de chuva que caíam isolados de um céu ligeiramente escurecido. Sabia bem aquela frescura debaixo do sol quente da manhã e, não havendo nada mais para fazer, encostou-se a um tronco de árvore rugoso e deixou-se refrescar pela natureza.

Os pingos tornaram-se mais grossos, mais pesados, e eram fustigados pelos ramos agitados das enormes árvores, de onde caíam objetos espinhosos e duros. O céu estava cada vez mais escuro e a frescura da chuva dera lugar a um frio desconfortável e perigoso que o obrigou a procurar abrigo. Nunca pensara na hipótese de uma tempestade, mas os trovões que fizeram a terra tremer impulsionaram-no a procurar sobrevivência naquela ilha onde começava a suspeitar que iria acabar por morrer.

Colocou sobre a cabeça uma enorme folha semelhante à de um plátano para o abrigar enquanto procurava algo que servisse de haste para elevar em forma de cabana a lona que encontrara na véspera.

A terra tremia incessantemente, indefesa sob a tortura da natureza revoltada, pelo que não o surpreenderia se frestas se abrissem por baixo dos seus pés.

Repreendeu-se por não ter previsto o que estava a passar-se quando ouviu um rugido de Németh, que se aproximava em jeito de caça. Irrefletidamente tinha-se afastado da clareira de cogumelos, pelo que largou a lona e correu para lá o mais rapidamente que pôde, até que a travou, atirando-lhe novamente com um cogumelo que colheu à toa, na expectativa de que surtisse o mesmo resultado da véspera.

Efetivamente, tornou a ouvir uma música entoada por uma voz delicada. No entanto, reconheceu uma música infantil sobre um barco que passeava no mar.

– Németh? – chamou, esperançoso de a ver ressurgir para lá do remoinho que se prolongava diante dos seus olhos.

O turbilhão acabou, revelando um rapazinho sentado com as pernas à chinês na areia molhada. Com as mãos pousadas no colo, os punhos fechados, chorava quase inaudivelmente.

Eric ajoelhou-se diante dele, confuso.

– Németh?

O rapazinho ergueu a cabeça para o encarar, visivelmente satisfeito com aquela familiaridade.

– Sim, senhor?

– Sou Eric. Lembras-te?

Uma sombra passou pelos olhos do menino, que abanou a cabeça em negação.

O cogumelo. Não prestara atenção se lhe atirara com um igual ao da véspera, na pressa – e ânsia – de rever a mulher sensual que o despertara.

– Tenho medo… – murmurou o rapazinho.

– Anda! – chamou Eric, estendendo-lhe a mão e conduzindo-o para debaixo da lona erguida sob a forma de abrigo.

Protegeu-se e ao rapazinho o melhor que conseguiu da chuva. Queria conseguir fazer uma fogueira, mas não iria aguentar, pelo que o puxou para si, de forma a que o contacto dos corpos os mantivesse a ambos quentes.

Daria qualquer coisa para, em vez de estar a abraçar uma criança, ter nos braços a linda mulher que adormecera sobre as suas pernas e cujos olhos lhe pediam algo que não tinha a certeza de conseguir dar, mas que queria, sem dúvida, tentar.

Ainda faltavam várias horas para o dia acabar e para, assim, o feitiço reverter. Haveria um antídoto que acelerasse o processo? Ninguém, nem Erwan, nem Nadir, nem Németh na véspera lhe haviam dado qualquer informação a esse propósito.

A chuva abrandara um pouco, ainda que a tempestade continuasse a assediar a ilha, o que lhe deu uma aberta para sair do abrigo.

– Aonde vai, senhor? – Perguntou a voz assustada do rapaz.

– Não te preocupes, vou só tentar encontrar comida para ti. – Mentia, mas não sabia quanto tempo mais lhe restaria ali, muito menos quantas tentativas teria ainda para encontrar Németh.

Levantou troncos e ramos caídos, revelando pequenos aglomerados de cogumelos semelhantes aos que atirara a Németh e conseguiu, à luz de uma observação mais minuciosa, distinguir naquela espécie de carapaça arredondada duas subespécies distintas: os que atirara na primeira manhã eram salpicados de vermelho e os que atirara desta vez tinham pequenas bolas verdes acinzentadas no cocuruto.

Sorriu, esperançoso. Reconhecia aqueles cogumelos dos livros de botânica que guardava na biblioteca de casa, junto à lareira, e que folheava com Ingrid se, por vezes, tinha trabalhos para fazer na escola sobre o tema.

Começou a vasculhar o solo ativamente à procura de algo concreto: precisava de descobrir, entre a vegetação rasteira, umas bagas do tamanho de azeitonas, de uma tonalidade azul petróleo, cuja casca serviria como antídoto. Os polymel são arbustos raros mas que abundam, normalmente, junto de fungos, pelo que acabou por encontrar um um pouco mais adiante.

Quando se preparava para arrancar um ramalhete, ouviu passos atrás de si quebrarem galhos caídos no chão. Apanhado em flagrante, voltou-se assustado:

– O que é que te disse? Era para ficares na tenda enquanto procurava comida!

Enervava-o a presença de Németh sob aquela forma tão desconcentrante. Ainda há tão pouco tempo tinha diante de si uma mulher fatal de olhar profundo e conquistador, mas fora cruelmente substituída por uma criança que desesperava por fazer desaparecer.

– Tive medo…. Ouvi um barulho e tive medo de que tivesse sido atacado. Vim ver se precisava de ajuda.

Aquele tom de voz suave e inocente de menino amoleceu-o.

– Não aconteceu nada. Deve ter sido um ramo a estalar. Volta lá para a tenda.

– E a comida? – pediu o rapazinho a medo.

Eric arrancou uma mão cheia de bagas e estendeu-lhas:

– Tens aqui. O sabor é amargo a princípio, mas depois torna-se muito doce.

O rapazinho fez um esgar de desgosto:

– Acho que não vou gostar…

– Anda, prova. Não é assim tão mau – insistiu Eric. – Faz-te bem, ainda por cima – mentiu.

– A quê?

Pensou um pouco e acabou por dizer:

– Às defesas. Ajuda-te a desenvolver um sistema imunitário mais forte, o que faz com que se te magoares te cures mais rapidamente.

Németh encolheu os ombros, resignado, e pegou numa baga que cheirou com cuidado e trincou, reticente. Mastigou o pedaço durante uns segundos e acabou por engoli-lo com uma careta.

De regresso à tenda, abrigados da chuva que recomeçara a cair, Eric foi dando um bago atrás do outro para que Németh comesse.

– O senhor não quer?

– Não consegui encontrar suficientes para os dois. Come tu, que precisas mais do que eu.

– E se se magoar?

– Já não sou novo, isso já não me ajuda tanto como a ti. – Recomeçava a ficar impaciente com a lentidão com que o miúdo comia, não havendo meio de se transformar de volta na Németh que desejava. – Anda lá, tens de comer para dormir e ganhar forças.

– Conta-me uma história? – Pediu Németh, encostando a cabeça nas pernas de Eric, como Ingrid fazia quando era pequena e ainda queria que a embalasse um pouco até adormecer.

Era por ela, pela recuperação da relação carinhosa que em tempos haviam tido, que iniciara aquela jornada para a ilha deserta, onde acabara enfiado dentro de uma tenda com um menino abandonado, filho de nada, pertencente a ninguém e que o fazia lembrar-se da razão da sua vida. O que estava, então, a fazer? Porque nada parecia dirigir-se para lado algum?

Quando a noite começou a cair, fechou os olhos e adormeceu, com a mão pousada sobre os negros cabelos do rapazinho.

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