Copa de luz

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Fotografia @theshorstoryteller

– O que queres ser quando fores grande?

– Quero ser professora de bebés. E pentear os cabelos das meninas. E pintar os lábios às senhoras. E tu?

– Eu já sou grande!

Entre gargalhadas, a menina retorquiu:

– Claro que não és! És muito pequenina – apontou-a, sublinhando a evidência. – Então, o que queres ser quando fores grande?

– Feliz.

– Oh, madrinha… isso é resposta de velhinhos. Continue reading “Copa de luz”

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Estrelas numa tarde de verão

[Post originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita – o mote é a 7ª frase da 7ª página do 7º livro da minha estante: A Bruxa de Oz, de Gregory Maguire]

“Era som sem melodia – como música onírica, recordada pelo seu efeito, mas não pelas suas angústias e recuperações harmónicas.”

Entrava-lhe diretamente na alma, ignorando o ouvido, apoderando-se de um corpo pesado que dançava de forma quase cómica, solta, privado de qualquer coordenação. Os olhos, num estado de descontrolo, traíam o transe a que se abandonava sob o céu estrelado de uma tarde de verão, que o atraía para o abismo da felicidade extrema, sem limites nem barreiras.

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Terra perdida

Um grito dilacerante cortou a noite.

A princípio parecia apenas uma ilusão, o barulho de um bicho na copa de uma árvore, uma porta a mexer num andar mais distante. Ainda assim, foi o suficiente para o cérebro se manter alerta, tentando adivinhar a origem daquela perturbação que afastara o sono e, consigo, trouxera preocupação e receio. Continue reading “Terra perdida”

Boa sorte e até um dia

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Ao fim de todos aqueles anos, viu as paredes despidas, tal como no dia em que as vira pela primeira vez, um pouco mais sujas, cativeiros de memórias e de histórias irrecuperáveis pelo andar dos dias. O quadro em tons de vermelho e preto que correra meio mundo para adquirir estava já embalado, a caminho do seu novo destino: um armazém nos arredores da cidade, suspenso no tempo até que lhe fosse indicado um novo rumo.

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Balance

(English version below)

Chega dezembro, aí meados do mês, e invariavelmente começam os balanços do ano que passou. Listam-se as coisas boas que aconteceram, as conquistas que se alcançaram, as viagens que se fizeram e tenta-se que superem os feitos desagradáveis que pautaram as nossas vidas.

Chega o dia 14 de dezembro, o dia do meu aniversário e, invariavelmente, dou o meu ano por terminado, não sem antes fazer esse mesmo balanço. Penso-o e escrevo-o ou não. E começa um novo ciclo no qual, 365 dias depois, reflito novamente. Continue reading “Balance”

O portal (Parte VI) – Polymel

Para sua grande desilusão, de madrugada encontrou, embora na posição em que tinham adormecido, a fera de pelo negro. Não queria mexer-se para não a acordar sem antes decidir como lidar com ela, mas a dormência nas pernas e as pontadas nas costas impeliram-no a afagar-lhe o dorso, numa tentativa de estabelecer algum contacto agradável entre os dois.

Em vão. O animal abriu os dois enormes olhos negros, com o familiar brilho faminto, e lançou-lhe um rosnar revoltado.

– Está bem, está bem! Come isto. – Atirou-lhe com uma mão de frutos secos para longe de si, de forma a poder levantar-se e esticar o corpo. Continue reading “O portal (Parte VI) – Polymel”

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